Você está fotografando ou apenas apertando o botão? A importância das decisões.
- Mauricio Daher

- há 3 dias
- 4 min de leitura
Existe uma diferença enorme entre tirar uma foto e fotografar.
Qualquer pessoa pode apontar uma câmera, enquadrar alguma coisa e apertar o disparador.
Mas fotografar exige uma decisão.
Antes de apertar o botão, o fotógrafo precisa responder, ainda que rapidamente:
O que eu quero mostrar?
Essa pergunta parece simples, mas muda completamente a maneira de fotografar.
A câmera não sabe o que você quer dizer
Uma câmera pode medir a luz, calcular o foco, equilibrar o branco, reconhecer rostos e até sugerir configurações.
Ela pode fazer muita coisa.
Mas existe algo que ela não pode fazer por você:
decidir o que merece ser fotografado.
A câmera registra aquilo que você coloca diante dela.
Quem transforma aquilo em fotografia é você.
Por isso, uma fotografia tecnicamente perfeita pode ser completamente sem graça.
E uma fotografia aparentemente simples pode ser extraordinária.
A diferença nem sempre está no equipamento.
Está na intenção.
Antes da técnica, observe
Um erro muito comum de quem está começando é pensar primeiro na configuração da câmera.
“Qual velocidade eu uso?”
“Qual abertura?”
“ISO 100 ou 400?”
“Qual lente?”
Essas perguntas são importantes.
Mas existe uma pergunta anterior:
O que está acontecendo diante de mim?
Observe a luz.
Observe as sombras.
Observe as pessoas.
Observe o fundo.
Observe as linhas.
Observe o que está sobrando dentro do enquadramento.
Observe aquilo que pode desaparecer se você esperar mais cinco segundos.
Fotografar começa quando você aprende a perceber.

Não fotografe tudo
Ter uma câmera não significa que você precisa fotografar tudo.
Aliás, uma das maiores evoluções de um fotógrafo acontece quando ele começa a entender que não fotografar também é uma escolha.
Imagine uma cena diante de você.
Há uma pessoa, uma janela, alguns objetos, uma parede, carros passando e várias outras informações.
Você pode simplesmente registrar tudo.
Ou pode decidir:
“É aquela pessoa que importa.”
Então você muda sua posição.
Aproxima-se.
Elimina o excesso.
Procura uma luz melhor.
Espera o momento certo.
E fotografa.
Nesse instante, você deixou de simplesmente registrar uma cena.
Você começou a construir uma fotografia.
Mude de posição
Muitas fotografias ruins não precisam de uma câmera melhor.
Precisam de um fotógrafo que dê três passos para o lado.
Ou dois para frente.
Ou um para trás.
Experimente fotografar a mesma cena de diferentes posições.
Mais alto.
Mais baixo.
Mais perto.
Mais longe.
De frente.
De lado.
Observe como o fundo muda.
Observe como a luz muda.
como os elementos se relacionam.
A posição do fotógrafo interfere diretamente na fotografia.
Você não fotografa apenas com a câmera. Fotografa também com o lugar de onde decide olhar.

A luz não é apenas iluminação
Outro erro comum é pensar na luz apenas como algo que precisa ser suficiente para produzir uma exposição correta.
Luz é muito mais do que isso.
A luz pode criar volume.
Pode separar um assunto do fundo.
Pode criar profundidade.
Pode transmitir delicadeza, tensão, dramaticidade ou tranquilidade.
Uma mesma pessoa fotografada sob diferentes condições de luz pode parecer estar vivendo histórias completamente diferentes.
Por isso, antes de perguntar “como iluminar?”, pergunte:
“O que essa luz está fazendo com a minha fotografia?”
A fotografia acontece antes do disparo
Quando você aperta o botão, uma parte importante do trabalho já deveria ter acontecido.
Você deveria ter observado.
Escolhido.
Eliminado.
Esperado.
Decidido.
A fotografia não começa quando o obturador dispara.
Ela começa quando você olha para uma cena e pensa:
“É isso que eu quero mostrar.”
O disparo é apenas a consequência dessa decisão.
E quando a foto não funciona?
Não culpe imediatamente a câmera.
Nem a lente.
Nem o ISO.
Nem o foco automático.
Pergunte primeiro:
O que eu poderia ter feito diferente?
Poderia ter mudado minha posição?
Esperado outra luz?
Aproximado?
Afastado?
Eliminado algum elemento?
Mudado o enquadramento?
Esperado a pessoa se movimentar?
Fotografia também é aprender a analisar os próprios erros.
Cada fotografia que não funciona pode ensinar alguma coisa.
Desde que você saiba olhar para ela.

O fotógrafo não é um apertador de botão
A tecnologia evoluiu muito.
Hoje, câmeras conseguem fazer coisas que pareciam impossíveis há poucos anos.
Isso é excelente.
Mas quanto mais a câmera faz automaticamente, mais importante fica aquilo que continua sendo responsabilidade do fotógrafo.
Escolher.
Escolher o assunto.
Escolher o momento.
Escolher o enquadramento.
Escolher a luz.
Escolher o ponto de vista.
Escolher quando fotografar.
E, principalmente, escolher quando não fotografar.
Não tenha medo dos recursos automáticos da sua câmera.
Use-os.
O problema não é deixar a câmera fazer algumas escolhas técnicas.
O problema é deixar que ela faça todas as escolhas.
Um exercício para você
Na próxima vez que sair para fotografar, faça um exercício simples.
Escolha uma única cena.
Não fotografe imediatamente.
Observe durante alguns segundos.
Depois faça três fotografias mudando apenas sua posição.
Na primeira, fotografe como você normalmente faria.
Na segunda, aproxime-se ou mude o ângulo.
Na terceira, procure eliminar tudo aquilo que não é importante.
Depois compare.
Não procure a fotografia mais “bonita”.
Procure aquela que melhor comunica aquilo que você queria mostrar.
Esse exercício parece simples.
Mas ele começa a desenvolver uma das características mais importantes de um fotógrafo:
a capacidade de decidir.

Para guardar
Uma boa câmera pode ajudar você a produzir uma boa fotografia.
Uma boa lente pode ampliar suas possibilidades.
Uma boa técnica pode evitar erros.
Mas nenhuma delas substitui o olhar.
A câmera registra. O fotógrafo decide.
E talvez essa seja uma das primeiras grandes mudanças na sua evolução:
Parar de perguntar apenas “como faço essa foto?”
E começar a perguntar:
“por que quero fazer essa foto?”
Porque é nesse momento que você deixa de apenas apertar o botão.
E começa, de fato, a fotografar.
Fotografia não é apenas aquilo que a câmera consegue registrar.
É aquilo que você decidiu mostrar.
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Você está fotografando ou apenas apertando o botão? A importância das decisões.
Você está fotografando ou apenas apertando o botão? A importância das decisões.
Por Mauricio Daher
Fotógrafo e Professor de Fotografia na FOTO|CONCEITO




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