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Exercícios de descondicionamento do olhar que todo amante da fotografia deve fazer

Foto do escritor: Mauricio Daher
Mauricio Daher
8 de out.
7 min de leitura

Você já voltou de uma saída fotográfica com a sensação de ter feito as mesmas fotos de sempre?


O lugar era outro, a luz era diferente, mas os enquadramentos, os assuntos e até a maneira de organizar a imagem pareciam familiares demais.


Talvez esteja na hora de mudar a maneira de procurar uma fotografia.


Com a prática, desenvolvemos preferências, atalhos e soluções que funcionam, mas também podemos repetir essas escolhas antes de investigar o que a cena oferece.


Chamamos aqui de descondicionamento do olhar o exercício de reconhecer esses hábitos e experimentar outras maneiras de observar, enquadrar e contar uma história.


Você pode começar com a câmera que já tem ou com o celular, dentro de casa, na rua ou no caminho que percorre todos os dias.


O que significa descondicionar o olhar na fotografia?

Imagine que você encontre uma árvore bonita e, quase sem pensar, fotografe de frente, na altura dos olhos, incluindo a copa inteira.


A fotografia pode funcionar muito bem, mas quantas possibilidades ficaram fora dessa primeira escolha?


Há a sombra da árvore atravessando a calçada, a textura do tronco, uma pessoa descansando sob os galhos e o encontro entre as folhas e a fachada de um prédio.


Descondicionar o olhar é dar uma chance a essas possibilidades antes de encerrar a cena.


Ter um estilo próprio inclui reconhecer suas escolhas e saber quando vale a pena experimentar outras.


Os exercícios a seguir criam pequenas restrições para que você procure soluções que normalmente não procuraria.


1. Fotografe o que você costuma ignorar

Durante uma caminhada de 20 minutos, procure assuntos que você geralmente deixaria passar.


Pode ser uma parede descascada, uma cadeira vazia, um remendo no asfalto, a sombra de uma grade ou o encontro de duas superfícies.


Escolha cinco desses assuntos e tente construir uma fotografia interessante de cada um, observando luz, textura, forma e relações entre os elementos.


Evite depender apenas da estranheza do objeto para sustentar a imagem.


Pergunta para revisar: o que fez esse detalhe deixar de ser apenas um objeto e se tornar uma fotografia?


O exercício ajuda a descobrir quanto da força de uma imagem pode nascer da maneira de mostrar um assunto aparentemente banal.


Janela em parede branca/azulada à noite, vista por entre faixas desfocadas laranja, em clima sombrio.


2. Faça dez fotografias do mesmo assunto

Escolha algo simples, como uma planta, uma janela, uma xícara ou uma bicicleta.


Produza dez imagens com mudanças reais de interpretação, variando distância, altura, fundo, orientação, luz ou relação com o ambiente.


Uma sequência de dez cliques quase iguais não cumpre a proposta.


Se as primeiras soluções se esgotarem, pare por um momento e observe o que você ainda não explorou.


Uma xícara pode aparecer inteira, virar uma composição de curvas, ser sugerida por sua sombra ou participar de uma cena sobre a pausa no trabalho.


Pergunta para revisar: qual fotografia surgiu depois que você achou que já não havia mais nada para fazer?


Mulher caminhando em rua urbana em preto e branco, ao lado de parede listrada, poste antigo e placa One Way.

3. Saia da altura dos olhos

Escolha uma cena e fotografe primeiro na sua posição habitual.


Depois, faça versões com a câmera perto do chão, na altura da cintura e em um ponto mais alto que seja seguro e acessível.


Observe como a mudança de posição altera o fundo, a escala dos elementos e o encontro entre linhas.


Às vezes, poucos centímetros bastam para tirar um objeto incômodo do enquadramento ou aproximar visualmente dois elementos.


Pergunta para revisar: em qual altura a cena ficou mais clara ou expressiva, e por quê?

Use a mudança de posição com intenção, sem presumir que um ângulo incomum será automaticamente melhor.


Corredor vazio de tijolos com arcos geométricos, piso refletivo e luz suave ao fundo, em ambiente silencioso e simétrico.


4. Observe por cinco minutos antes de fotografar

Escolha um lugar e mantenha a câmera ou o celular guardado durante cinco minutos.


Observe de onde vem a luz, onde as pessoas passam, quais gestos se repetem e que partes da cena disputam sua atenção.


Só depois desse período, faça até três fotografias.


A limitação convida você a escolher um momento e um enquadramento, em vez de fotografar cada estímulo que aparece.


Pergunta para revisar: o que você percebeu no quinto minuto que ainda não tinha percebido no primeiro?


Retrato em preto e branco de mulher com cabelo ao vento, em fundo desfocado, com ar sereno e melancólico.


5. Procure relações entre os elementos

Em vez de sair procurando objetos interessantes isolados, procure encontros.


Uma roupa que repete a cor de uma fachada, uma curva que responde à curva de outro objeto ou uma figura pequena diante de uma estrutura enorme podem criar relações visuais.


Faça cinco fotografias em que pelo menos dois elementos contribuam para a ideia da imagem.


Cuide para que essa relação esteja visível no enquadramento e não exista apenas na explicação que você daria depois.


Pergunta para revisar: o que a presença de um elemento acrescenta à leitura do outro?


Rastreamento abstrato de luzes urbanas à noite, com feixes azuis, brancos e dourados irradiando de um centro escuro.


6. Use uma única distância focal

Durante uma saída, escolha uma lente fixa ou mantenha o zoom em uma única distância focal.


No celular, permaneça na mesma câmera, como a principal em 1x, evitando alternar entre modos para resolver cada enquadramento.


Procure as composições mudando sua posição, escolhendo o que incluir e observando as distâncias entre você, o assunto e o fundo.


Ao se aproximar ou se afastar, repare que também muda a relação de perspectiva entre os elementos.


Pergunta para revisar: que solução você encontrou porque não podia recorrer ao zoom?

A restrição serve para ampliar sua atenção às escolhas de posição, sem transformar uma lente específica em requisito para fotografar bem.


Foto em preto e branco de uma mão apontando para uma foto emoldurada com outra mão fazendo gesto obsceno.


7. Construa uma imagem com aquilo que fica de fora

Escolha uma cena e faça uma fotografia que apresente o contexto inteiro.


Depois, produza uma segunda imagem eliminando o máximo possível, mas preservando a ideia que você quer comunicar.


Experimente mostrar uma parte do objeto, um gesto, um reflexo ou um vestígio que sugira algo além do enquadramento.


Uma cadeira vazia diante de uma mesa pode sugerir uma presença, mas o resultado dependerá dos detalhes e do contexto visíveis.


Pergunta para revisar: o corte tornou a imagem mais sugestiva ou apenas mais difícil de entender?


Câmera Rolleiflex vintage ao centro, com colher e rifle sobre caixa de madeira, em cena rústica e sombria.


8. Siga a luz por um dia

Escolha um espaço que você possa visitar em três horários diferentes, como uma janela, um corredor ou uma parte do quintal.


Fotografe observando a direção da luz, o desenho das sombras, os reflexos e as mudanças de contraste.


Procure um enquadramento semelhante nas três imagens para facilitar a comparação e depois experimente uma composição própria para cada condição.


Pergunta para revisar: como a luz mudou a sensação do lugar e as escolhas que você fez?


Se quiser prolongar a experiência, volte em um dia nublado e compare novamente.


Pilar de ponte estaiada em preto e branco, com cabos diagonais sob céu nublado e clima dramático.


9. Conte uma história em cinco fotografias

Escolha uma ação cotidiana, como preparar um café, cuidar de uma planta ou organizar uma mesa de trabalho.


Construa uma sequência de cinco imagens que apresente a situação e permita acompanhar seu desenvolvimento.


Você pode combinar uma imagem de contexto, um gesto, um detalhe e um momento de encerramento, sem precisar seguir uma fórmula rígida.


Cada fotografia deve acrescentar alguma coisa à sequência.


Pergunta para revisar: se você retirar uma imagem, a história perde informação ou continua igual?


Esse exercício amplia sua atenção para a função de cada fotografia dentro de um conjunto.


Silhueta de homem caminhando por corredor escuro em preto e branco, com parede branca iluminada ao fundo.

10. Troque a pergunta que orienta sua fotografia

Ao encontrar uma cena, escolha uma palavra que represente o que você deseja comunicar.


Pode ser calma, pressa, delicadeza, tensão, solidão ou proximidade.


Faça três fotografias tentando expressar essa ideia por meio de luz, distância, organização dos elementos e momento.


Se escolher “pressa”, por exemplo, investigue gestos, fluxo de pessoas, cortes e possibilidades de movimento, em vez de depender apenas de um assunto associado à correria.


Pergunta para revisar: quais escolhas visuais ajudam alguém a perceber a sensação que você buscou?


Sedã prata em movimento à noite, com luzes urbanas desfocadas e reflexos alaranjados na rua, criando clima dinâmico.

11. Experimente sair da sua solução favorita

Observe algumas fotografias recentes e identifique uma escolha que você repete com frequência.


Talvez seja o fundo desfocado, a composição simétrica, a centralização do assunto ou o uso recorrente de primeiro plano.


Em uma nova sessão, procure soluções que dispensem esse recurso.


Se você costuma destacar o assunto pelo desfoque, tente criar separação por luz, cor, posição ou contraste, mantendo mais do ambiente legível.


Pergunta para revisar: o que sua solução habitual resolve, e que outras escolhas poderiam cumprir essa função?


Volte a usar seu recurso favorito quando ele fizer sentido, agora com mais alternativas à disposição.


Mulher de jaqueta jeans fotografa com câmera DSLR numa multidão à noite, em cena urbana iluminada e desfocada.


12. Fotografe sem consultar a tela a cada clique

Escolha uma situação simples, com iluminação relativamente estável, e faça uma sequência curta de até dez fotografias.


Confira inicialmente a exposição e o foco, se necessário, e depois evite revisar cada imagem até terminar.


Dedique esse intervalo a acompanhar a cena e perceber mudanças de gesto, luz e organização.


Pergunta para revisar: o que você conseguiu acompanhar ao permanecer mais tempo olhando para o assunto?


Escolha uma situação de treino sem momentos irrepetíveis, para que a experiência tenha espaço para tentativa e erro.


Como avaliar os resultados sem cair no “gostei” ou “não gostei”

Separe três fotografias de cada exercício e compare as escolhas que fez.


Pergunte onde o olhar entra na imagem, o que atrai atenção, quais elementos distraem e o que o enquadramento comunica.


Procure identificar uma decisão que funcionou e outra que você gostaria de experimentar de maneira diferente.


Você também pode mostrar a imagem a alguém antes de explicar sua intenção e perguntar o que essa pessoa percebe.


A resposta oferece uma oportunidade de comparar a ideia que você buscou com a leitura que a fotografia permite.


Uma imagem que não funcionou como você imaginava ainda pode revelar uma escolha que merece ser investigada.


Um desafio de sete dias para começar

Escolha uma proposta por dia e reserve de 15 a 30 minutos para praticar.


  1. Dia 1: fotografe cinco assuntos que você costuma ignorar.

  2. Dia 2: faça dez interpretações do mesmo objeto.

  3. Dia 3: explore a mesma cena em diferentes alturas.

  4. Dia 4: observe por cinco minutos e faça apenas três fotografias.

  5. Dia 5: procure relações entre cores, formas ou escalas.

  6. Dia 6: conte uma pequena história em cinco imagens.

  7. Dia 7: revise os resultados e refaça uma fotografia com uma nova intenção.


A proposta é terminar a semana com mais consciência sobre o que chama sua atenção e sobre as escolhas que você faz ao fotografar.


O seu jeito de fotografar também precisa de espaço para crescer

Aprender técnica amplia suas possibilidades de realização, enquanto observar, experimentar e analisar ajuda você a decidir o que deseja fazer com elas.


Na Foto Conceito, valorizamos esse encontro entre conhecimento, prática e expressão pessoal.


A FOTO|CONCEITO não ensina você a fotografar do nosso jeito: ajuda você a descobrir o seu.

Escolha um dos exercícios, pratique com o equipamento que tem e observe quantas possibilidades aparecem quando você dá mais tempo à cena.


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Exercícios de descondicionamento do olhar que todo amante da fotografia deve fazer

Exercícios de descondicionamento do olhar que todo amante da fotografia deve fazer

Por Mauricio Daher

Fotógrafo e Professor de Fotografia


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